Contributos para Construir a Ambição Angola 2022:
Uma Angola para nós e para os Nossos filhos
Neste artigo pretendemos explicitar a necessidade de um contributo substantivo para a reflexão sobre a nossa importância e responsabilidade enquanto geração herdeira do sonho dos “libertadores” e construtores de uma ambição de País onde seja bom viver, trabalhar e que possamos deixar como herança aos nossos filhos. A concretização dessa ambição passa por uma política de cidades, reabilitação e ordenamento do território nacional, numa lógica de suporte do ciclo de vida da criação e consolidação do desenvolvimento social e económico do País e dos Angolanos.
As motivações que animaram a escrita deste artigo são variadas:
1- A vontade de contribuir para mudar para melhor a vida dos Angolanos;
2- Dar um contributo de cidadania através da explicitação de uma visão simultaneamente pragmática e de sonho para o País;
3- De forma simples e numa lógica de comunicação com sentimento, tão só porque é esta geração que tem a responsabilidade e a força moral e intelectual para aplicar as fórmulas sonhadas por aqueles que tornaram este País independente, “maior” e preparado para se tornar numa referência Africana no Mundo.
Assim, entendemos que nestes tempos de Paz, é urgente a orientação da energia criativa para a construção de uma matriz de futuro para o País.
Desta forma, não pretendemos dar um contributo para uma reforma do País, porque uma reforma é sempre uma acção datada e curta, resolvendo o momento e na maioria das vezes sem uma estratégia sólida de futuro.
O vector que orienta a nossa reflexão é estratégico, ou seja, centra-se no que queremos ser como Povo e como País na constelação global de países, pois estamos em plena globalização.
Nessa conformidade o que interessa é a Intelligence Thinking de base estratégica. O desafio é pensar a inovação-inteligente como instrumento de abordagem do País numa perspectiva de longo prazo, sustentadora da acção de curto prazo ao nível político, económico, social e cultural.
O desafio que aqui vos deixo, é pensar Angola 2022.
Angola 2022, será a Nossa Angola, a Angola construída pelos actores-decisores de hoje, que constituem o “Conselho de Administração” do País e que têm três ciclos de cinco anos para construírem esse Nosso Sonho de País, para Nós e para as gerações dos Nossos Filhos.
Assim, é urgente dizermos, debatermos e divulgarmos que País queremos, sem constrangimentos, pois esse será o compromisso a que os líderes se terão que vincular.
Angola não é mais um fragmento da África Portuguesa, no entanto pode assumir uma posição de nó de uma rede transcontinental de pessoas, empresas e instituições, partilhando poder e identidade multi-áreas, numa lógica de centro do arco euro-afro-americano.
Do nosso ponto de vista, a questão central que se coloca, será saber como garantir desenvolvimento e equidade social, tendo em conta particularmente a saúde, a educação, o ambiente, a habitação e a mobilidade de pessoas e bens, para sustentar uma sociedade mais justa, equilibrada e sustentável, comparativamente com aquela que hoje existe.
Para tanto, importa aumentar o número de oportunidades para os cidadãos ao nível da iniciativa pessoal em termos da formação, dos negócios, da cultura, da habitação, etc, por forma a garantir o respeito pela propriedade do outro, seja ela material, intelectual ou cultural.
Somos partidários da clarificação da matriz do modelo de sociedade que orienta o desempenho político, introduzindo alguma inovação que traga a economia nacional e o seu suporte de operacionalização, bem como a criação de riqueza, para mais próximo dos países desenvolvidos e solidariamente com melhor equidade social.
O País das gerações da guerra de libertação é bastante diferente do de hoje em que as novas gerações se encontram mais próximas do resto do mundo nas suas qualificações, na sua relação com a tecnologia, nos consumos de cultura e outros.
Mas a sociedade Angolana é um todo e como tal, esta melhoria só funcionará como factor de desenvolvimento sustentável se formos capazes de mobilizar a maioria para este universo, criando as condições necessárias para que tal ocorra.
Por esta razão o País precisa de investir na rede de estabelecimentos de ensino, particularmente o superior e na área da investigação, numa lógica de comprometimento do mesmo com a comunidade em que se insere, disponibilizando a produção científica ao meio e promovendo parcerias socialmente úteis. É que não existe desenvolvimento económico e social sem a alavancagem da intervenção do Estado na investigação científica e na promoção da dimensão social.
Daqui resultam perguntas estratégicas:
- Que papel do estado na economia e na área social?
- Que política territorial estratégica (ordenamento, mobilidade, rede de cidades e administração)?
- Que políticas de saúde, educação e ciência?
- Que políticas de inovação e tecnologia?
Mas, Angola é ainda hoje um País desigual. A constatação deste facto, coloca desde logo um conjunto de interrogações:
- Em que sectores da sociedade?
- Com que distribuição territorial?
- Que factores induzem essa desigualdade?
- Que estratégias se podem introduzir no sentido de as resolver?
Num primeiro momento, importa identificar os factores determinantes da actual situação. Seguidamente deverá ser abordada uma estratégia de combate e os respectivos níveis de intervenção.
A explicitação desta ideia, não tem na sua génese o sentimento utópico da anulação total das diferenças sociais e culturais que enformam a sociedade Angolana, mas antes reflectir sobre a inclusão dos Angolanos na construção da Ambição Angola 2022, e a promoção da cidadania como factor de agregação nacional.
Hoje, a sociedade angolana apresenta um índice de distribuição da riqueza nacional bastante assimétrico, bem como uma oferta de emprego bastante frágil.

A baixos recursos económicos correspondem, normalmente, baixas habilitações escolares e baixas qualificações profissionais, a que acrescem baixos níveis de informação e cultura, potenciando a pobreza e a exclusão social.
Esta situação é inversamente oposta à dos que apresentam elevados níveis económicos, originando acentuadas diferenças sociais que importa atenuar.
A guerra que o País viveu, originou a fuga de “massa cinzenta” e até a sua perda por morte, delapidando o património de capital humano, no sentido de uma boa gestão do conhecimento, que importa desenvolver e recuperar.
Ora, o fim da guerra, criou condições para que o País possa orientar a sua atenção para estratégias e medidas políticas que permitam a criação de condições para a melhoria de oportunidades para os cidadãos, em particular para o que condiciona estruturalmente a qualificação da vida dos Angolanos: falamos de políticas de cidade e de ordenamento do território nacional, enquanto suporte de vida e das actividades económicas, que potenciem a redução da pressão populacional sobre as principais cidades, particularmente sobre a capital, e das actividades económico-empresariais, enquanto factores de fixação da população e qualificadores da sua vida.
O País precisa de um Ministério das Cidades, Reabilitação e Ordenamento do Território, enquanto instrumento de criação e gestão de políticas motoras para a criação e consolidação de estratégias de melhoria e qualificação da vida dos Angolanos empresários, políticos, estudantes, cidadãos comuns e outros.
Um terceiro factor prende-se com os indivíduos portadores de deficiência, tendo em conta as consequências da guerra, como parte integrante de um grupo que exige uma elevada preocupação ao nível da intervenção orientada para a igualdade de oportunidades, sendo que é um grupo portador de disponibilidade para a aquisição de competências escolares e profissionais, mas que implica atenção à dimensão urbana, por causa das barreiras arquitectónicas e territoriais.
Isto obriga a uma actuação política assente na concertação de estratégias sectoriais, pois não basta legislar em determinado sentido, para que a prática quotidiana dos cidadãos se oriente na direcção desejada. A dimensão educacional é determinante, e uma boa gestão e organização das cidades e do território, induz inputs pedagógicos que em acumulação com outros, orientam a integração e consolidação da ambição desejada: Angola 2022.
Os últimos anos, permitem olhar para o nosso futuro apoiado numa certeza presente, que o quadro da Paz é o que melhor garante os interesses dos angolanos, bem como o quadro global, pois foi esse contexto que impulsionou os desenvolvimentos políticos, económicos e sociais que estes anos registaram.
Foi bom! Mas é pouco, embora seja a alavanca da consciencialização nacional das possibilidades e competências para ambicionarmos mais, muito mais.
Podemos ter uma magnífica juventude, uma enorme vontade de sermos felizes, magníficos políticos e líderes angolanos que podem fazer obras de qualidade, mas é necessário contribuirmos para que se consiga não só uma Angola de qualidade, mas sim um rumo a um futuro sustentável.
Mas afinal em que se traduz a “Ambição Angola 2022”?
Parafraseando Séneca, “não há ventos propícios quando não se sabe para que porto se quer ir”.

Assim, a ambição explicitada configura um projecto de futuro para o País, a concretizar no horizonte temporal de 2022.
A visão corresponde à construção de um País, Capital do arco euro-afro-americano, enquanto nó de comando da rede Hispano-Lusófona que se liga ao resto da Europa e da América.
Estudos elaborados por vários autores, de que destacamos Hofstede, demonstram que os factores culturais explicam mais de cinquenta por cento das diferenças de índices de crescimento económico e social de 1980 a 1987. Michael Porter afirma, nos anos noventa, que só alguns países conseguem alcançar vantagens competitivas, mas é Kotler que explica que as diferenças de desempenho económico resultam de diferenças de cultura nacional. É nosso entendimento que essa cultura nacional se traduz pela cultura organizacional lato sensu.
Vejamos: antes da Primeira Guerra Mundial, a Argentina era o segundo País mais rico do mundo, em termos de rendimento per capita, só ultrapassado pelos Estados Unidos da América. Hoje, a incapacidade dos seus sucessivos governos para desenhar uma estratégia consistente, vencedora e vinculante, colocou este país na situação de ruptura que conhecemos, cerca de um décimo da Suíça.
Contrariamente, Singapura conseguiu, em quinze a vinte anos passar de País em desenvolvimento a País desenvolvido, apresentando baixos índices de desemprego, relevantes excedentes orçamentais e problemas sociais pouco significativos, atraindo várias empresas Europeias, particularmente alemãs.
As mudanças e tendências globais abrem oportunidades bem como ameaças aos vários países. A competência que cada país revelar para “agarrar” as oportunidades e se diferenciar positivamente depende, segundo Kotler, da forma como trabalhou e consolidou os seus componentes: a componente social, caracterizada pela cultura organizacional na forma como o governo, o tecido empresarial, social e cultural actuam, as atitudes e valores, e a coesão social; a componente económica, caracterizada pelos recursos naturais e a organização industrial, apoiada numa política de ordenamento do território e nesse âmbito a distribuição territorial dos pólos de desenvolvimento, os recursos humanos e a sua formação; e a componente política, caracterizada pelo sonho de País e respectiva capacidade de liderar a nação para a concretização sector a sector desse sonho.
Dos componentes apontados, destacamos as atitudes e valores, do nosso ponto de vista decisivos nesta fase de vida do País.
Para lá da cultura geral, as atitudes e valores de cada povo são determinantes no desempenho económico. Apontaremos o caso da França cuja atitude nacional lhe retirou a possibilidade de assumir a liderança da “Nova Europa”, quando as suas empresas e os seus empresários deixaram de assumir uma atitude intrinsecamente global ou multinacional.
Assim, embora as empresas francesas exportem razoavelmente bem, existem poucas espalhadas pela Europa, abrindo uma oportunidade imediatamente aproveitada pelos empreendedores alemães, suecos, holandeses e americanos. Sem uma atitude global nacional, poucos empresários franceses arriscaram fora do país.
Nesta linha de raciocínio, Angola precisa de criar uma atitude que potencie a emergência de empresários, executivos e empresas de capitais maioritariamente angolanos com vocação regional, para África, e internacional, para o eixo euro-afro-americano. Precisa de cuidar do seu capital humano, pois quanto mais alto o nível médio de conhecimento, mais facilmente essa população activa compreende e aplica a inovação técnico-tecnológica, traduzindo-se numa progressiva elevação do padrão de vida da população e do País.
Assim, o País deve investir na massificação da formação. A China é um exemplo interessante, pois à mais de uma década que abandonou a focalização do ensino no acesso às Universidades de elite, e introduziu uma focalização na massificação, atenuando a desigualdade na distribuição da riqueza nacional e potenciando a oferta de recursos humanos bem e medianamente qualificados.
Angola precisa de adoptar uma atitude deste tipo, que bem orientada, poderá introduzir um maior equilíbrio na política de remuneração de recursos humanos, pois aumentando a oferta, baixa o preço, e aumentando a qualificação escasseia a mão de obra básica, pelo que sobe a sua remuneração. Como consequência a economia tornar-se-á mais competitiva e atractiva, elevando-se o padrão de vida dos recursos humanos (angolanos e outros). Desta forma Angola passará a ser um País bom para investir, viver e trabalhar.
Mas, para que este sonho não se fique pela primeira fase, é absolutamente imprescindível uma política de ordenamento territorial que na sua dimensão infraestrutural, não permita que um estrangulamento do desenvolvimento ocorra, por força da sua inadequação para apoiar e alavancar a segunda fase de desenvolvimento, a da consolidação.
Por último diremos que a chave para tudo isto é a visão e capacidade de liderança do líder da nação. Recordamos aqui, a título de exemplo, a Perestroika de Gorbachev, a Nova China de Deng Xiaoping ou até a visão de Mandela, que abriram a emergência de empreendedores, cuja dinâmica contagiou actores motores internos e externos, e mudou radicalmente a ambição dos seus Povos e Países.
Angola precisa de criar uma Visão que dinamize a sociedade rumo à concretização da ambição Angola 2022: ser capital do arco euro-afro-americano.
Primeiro é necessária a criação da “Associação” arco euro-afro-americano, constituída pelas cidades capitais dos países do eixo Paris-Madrid-Lisboa-Sal-Bissau-Luanda-Brasília-Buenos Aires-Washington, e depois construir os atributos e posicionamento que nos leve à posição de Capital.
Temos gente, vontades, valor e ambição.
Vamos construir a nossa estrela no universo dos Países Hispano-Lusófonos com ligação ao resto da Europa e América.
Eu tenho uma ambição! E vocês?
Angola há-de inquietar, seduzir, cativar, prometer e cumprir!
Assim, seremos certamente um País de referência no Mundo.
Peixoto Alves